Ser ou pertencer, qual a sua escolha?
- Espaço dos empreendedores Brasília
- 16 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
COLUNA, MODA & ESTILO
Ser ou pertencer, qual a sua escolha?
16/11/2025 - Rayssa Leite

Alguns dias atrás, enquanto estava em um evento, recebi um elogio que ficou ecoando na minha mente: “Como você tem presença! As pessoas ficaram observando você. Na hora de escolher os looks, você tem uma noção de como se vestir e se apresentar, e isso faz muita diferença!”
É engraçado como às vezes uma frase simples, dita quase despretensiosamente, é capaz de mover algo dentro da gente. E foi justamente dessa sensação que nasceu o insight deste artigo. Então, seja muito bem-vindo, meu querido leitor, a mais uma edição da nossa coluna. O tema desta vez é direto, provocador e talvez um pouco desconfortável: ser ou pertencer, qual a sua escolha?
Tenho percebido, e não sei se você também, que conforme o tempo passa, mais frenéticos nós ficamos. Tudo precisa acontecer rápido, ontem, imediatamente. E me incluo nisso, porque sinto essa aceleração na pele. Queremos resultados que, na realidade, dependem de construção, maturidade e autoconhecimento, mas a paciência já não parece fazer parte da equação.
E aí surge meu primeiro questionamento: será que sabemos quem somos e o que estamos apresentando ao mundo quando as pessoas nos veem?
Soa meio clichê, eu sei. Talvez seja até efeito de fim de ano, aquele momento em que automaticamente começamos a fazer o balanço interno: “O que fiz? O que vivi? O que construí?” Mas a verdade é que saber quem somos nunca foi tão importante quanto é agora. E, quando falamos de moda, estilo e essência, isso fica ainda mais evidente.
As tendências mudam em um ritmo tão acelerado que às vezes parece que piscamos e já ficamos para trás. Vivemos uma avalanche de referências, estéticas, microtendências, influencers, celebridades e uma suposta fórmula mágica do que seria o look perfeito. E é justamente aí que mora o perigo: confundimos gosto pessoal com admiração, e pior, com a vontade de pertencer a determinado grupo que por vezes não representa o que realmente somos em nossa essência, apenas pelo "status".
Abrimos o celular e em segundos somos intoxicados por imagens impecáveis, corpos impecáveis, closets impecáveis, vidas impecáveis. Tudo tão polido, tão perfeitamente encaixado em uma narrativa visual que começamos a acreditar que precisamos, também, fazer parte daquele universo.
E é aqui que surge minha crítica, carinhosa, mas firme: muita gente não está construindo identidade, está apenas colecionando símbolos de pertencimento. A bolsa da marca X, o sapato da grife Y, o vestido tendência do momento, o shape que todas as influencers estão usando, o cabelo que viralizou.
Como se, ao vestir o que todo mundo está vestindo, finalmente tivéssemos acesso a algum tipo de validação social. Mas, no fim, o que acontece? A frustração bate.
Porque o espelho não devolve a admiração que você espera receber. Não devolve orgulho. Não devolve pertencimento real. Ele devolve o estranhamento. Aquela sensação silenciosa de que algo não encaixa. De que não é você. De que existe uma fantasia ali, bonita talvez, desejável também, mas que não foi construída a partir da sua essência.
E aqui está a chave da questão: pertencer é confortável, mas ser é libertador. Pertencer depende de aprovação externa. Ser depende de conexão interna. Pertencer se alimenta do olhar do outro. Ser se firma no olhar que você lança para si mesma. Pertencer exige adaptação. Ser exige coragem.
E quando falamos de moda, essa diferença se torna ainda mais poderosa. Porque estilo não é um personagem que usamos para caber; é uma extensão da nossa identidade. É presença, é mensagem, é narrativa, é verdade.
E é isso que faz com que alguém diga: “Você tem presença.” Presença não se compra, se constrói. A boa notícia é que ser você mesma, com consciência, verdade e intencionalidade, nunca sai de moda.
Então, para fechar essa reflexão, deixo um convite: antes de clicar em “comprar agora”, antes de seguir mais uma tendência e ficar bitolada, antes de tentar se encaixar em mais uma estética, pergunte-se: eu realmente me identifico com isso? Isso realmente representa quem eu sou? Porque a moda passa, as tendências passam, mas a sua essência fica. E, no final das contas, é ela que faz toda a diferença.
E se existe algo que aprendi ao longo da minha trajetória é que autenticidade tem um poder silencioso, porém profundo. Quando você decide abraçar quem realmente é, o mundo percebe. Sua energia muda, sua postura muda, sua presença muda. Não porque você está tentando chamar atenção, mas porque está alinhada com aquilo que realmente faz sentido para você. E essa coerência interna é percebida, admirada e respeitada.
Por isso, permita-se viver a moda de maneira mais leve e consciente. Use-a como ferramenta, e não como prisão. Observe, experimente, teste, sinta. E, acima de tudo, honre a sua própria história. Porque, no fim, ser você mesma sempre será mais bonito do que qualquer tendência passageira.
Por Rayssa Leite, advogada e consultora de imagem e estilo, pós-graduanda em Fashion Law e Indústria do Entretenimento, membro da Comissão de Direito da Moda da OAB/DF e autora do livro “Direito da Moda – Jurisprudências no Direito Brasileiro”, disponível em loja.editoracrv.com.br.
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Parabéns Rayssa, essa, sem dúvida alguma, é uma ótima reflexão, adorei!! “Ser é libertador”
Sempre cirurgica! Parabéns por abordar assuntos voltados, não somente a vestimenta despertar a consciencia nos faz refletir muito!